Um plano B

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Eu acordava todo dia com esperança de que meu joelho ficasse bom. E todo dia era uma decepção. A frustração era tão grande que não dá nem pra descrever. A dor em si não era insuportável, mas ela estava sempre presente. Meu medo era a longo prazo. Eu tinha (ainda tenho, aliás) que ir muito devagar nas descidas e tomar cuidado nas subidas, sempre usando mais a perna direita do que a esquerda. Mas a cada movimento descuidado, ou tropeço em raiz, a dor aparecia pra me lembrar das minhas limitações.

Só que na verdade nem dava tempo de sentir a dor no joelho, pq ela ia direto pra minha alma, apontando o dedo e ameaçando: vc vai ter que abandonar a trilha por causa de mim, muahaha! E imediatamente um milhão de pensamentos passavam pela minha cabeça: “ai meu deus senti o joelho de novo pqp não sei mais o que fazer será que vou ter que sair da trilha por causa disso mas eu não quero sair o que será que devo fazer será que tomo mais remédio será que tenho que descansar será que vai ficar pior a cada dia” etc etc etc. Resumindo, era uma tortura diária.

Meu joelho ocupava a maior parte dos meus pensamentos e eu decidi que não dava mais para viver assim nesse pavor constante. Precisava tirar esse assunto da cabeça. Tentei não pensar mais, não reclamar mais, não falar sobre, mas não deu muito certo, toda hora me pegava pensando no joelho. Mais ou menos quando tento meditar e não pensar em nada e quando vejo estou fazendo a lista do supermercado.

Tive que mudar de tática, pq afinal de contas eu nunca consegui meditar, não é mesmo? Então decidi que precisava de um plano B, por mais que estivesse evitando esse assunto. Só que eu precisava de um plano B tão bom, mas tão bom, que se eu realmente precisasse sair da trilha, não ficaria triste. Foi assim que decidi que se eu tiver que sair, vou para o Havaí.

Pronto. Agora a pior coisa que pode me acontecer é ir para o Hawaii. Terrível… Pq mesmo eu não vou logo amanhã, heim? Se tudo der errado vou curar meu joelho nas águas do oceano Pacífico. Desde que tomei essa decisão parei de sentir tanto medo o tempo todo. A cada pontada no joelho eu agora penso “hummm, um passo mais perto do Havaí…”.

Ficar me lamentando por algo que não posso controlar não adianta nada. Se não der, não deu, não é o fim do mundo, pelo contrário – é o início de mais uma oportunidade. Se a vida toma outro rumo, só nos resta acompanhar a valsa e tentar tirar o melhor possível da situação.

E provavelmente ainda sairia mais barato, pq procuraria um veleiro ou uma fazenda pra trocar trabalho por alimentação e hospedagem. Agora não tem mais como ficar triste. Seja lá o que acontecer eu vou adorar. Tenho visto, seguro-saúde e passagem de volta comprada, não vou desperdiçar a oportunidade, mesmo se eu tbm gostaria de voltar pra África do Sul logo.

Mas continuo firme por aqui, esse é apenas o plano B. Ainda acho que meu joelho vai ficar bom.

(escrevi esse post há alguns dias, meu joelho está começando a melhorar, iei!)

Untitled

{The Plan B}

I was waking up every day with the hope that my knee would get better. And it was a disappointment each time. The frustration was so huge that I cannot describe. The pain itself was not unbearable but it was always present. My fear was on a long term. I had to (and still do, by the way) go very slow when walking downhill and take huge care when walking up, always using the left leg more than the right one. But with every careless movement or stumble in a root, the pain appeared to remind me of my limitations.

In reality, I barely had time to feel the pain in my knee because it went straight to my soul, pointing a finger and threatening: “you will have to abandon the trail because of me, muahaha!” And immediately a million thoughts would go through my head: “o god i felt the knee again f*&% i don’t know what to do anymore will i have to leave the trail because of it but i don’t want to leave what should i do should i take more medication do i have to rest will this become worse each day” etc etc etc. In summary, it was daily torture.

My knee occupied most of my thoughts and I decided I could no longer live in the constant dread. I had to take this topic out of my head. I tried not thinking, not complaining anymore, no longer talking about it but it didn’t really work, I constantly caught myself thinking about it. Kind of like when I try to meditate and think about nothing and then I find myself doing the groceries list.

I had to change tactics, after all I could managed to meditate, right?

So I decided I needed a plan B, even if I was avoiding the subject.

Only what I needed was a plan B that would be so great, so so so great, that if I really had to quit the trail, I wouldn’t be sad. And this is how I decided that if I have to leave, I will go to Hawaii.

Done. Now the worse thing that can happen to me is going to Hawaii. Horrible… Why am I not going already tomorrow? If everything goes wrong I will go treat my knee in waters of the Pacific Ocean. Since I took that decision I stopped being so afraid all the time. Every time I feel something in my knee now I think “hmmm, one step closer to Hawaii…”

Lamenting myself for something I cannot control is useless. If it’s not possible, it is not possible, it is not the end of the world, on the contrary – it is the start of a new opportunity. If life takes another direction, we can only follow it and make the most of the situation.

And it would probably be even cheaper, because I’d look for a sailboat or a farm to work for in exchange for food and housing. Now I cannot be sad anymore. No matter what happens I will love it. I have a visa, a health insurance and a return ticket and I will not waste the opportunity even if I would also like to go back soon to South Africa.

But I remain strong here, this is only the B plan. I still think my knee will get well.

(I wrote this post a couple of days ago, my knee is starting to get better, yay!)

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4 comentários em “Um plano B

  1. Torcendo por você Amanda! Segura firme! Umas cosas que fiquei pensando… ainda tá com a bota? Tênis alivia mais o impacto. Tá usando o bastão correto? Altura, sempre com a perna oposta e tal? Só isso alivia em 30% o impacto… ande menos, coloque gelo e perna pro alto sempre que possível! Boa caminhada. Te encontro em breve!

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  2. Lindinha…torcendo muito pra que seu joelho deixe vc curtir mais essa aventura…eu estou adorando te acompanhar…nem que seja através das palavras…Besitos!!!❤❤❤❤

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